Outubro: A Morte e a Rainha de Paus

A tão temida Morte. Outubro se abre com o Arcano XIII, por muito tempo sem nome, como se a Morte fosse impronunciável, inconcebível. A Morte é uma transição, e Outubro se anuncia como um mês de transformações dolorosas.

A Morte é um esqueleto, toda a carne se foi. A verdade dura, nua e crua, aparece sem hesitar. Outubro é mês de tirar os esqueletos do armário, e de olhar para os problemas sem titubear. Não há mais como esconder as falhas, as rachaduras na casa, no relacionamento, no trabalho. Aquilo que estamos teimando em não enxergar será posto na nossa frente com bastante clareza. Não tem escapatória, o esqueleto acena para nós e podemos até não acenar de volta. Mas que nós vimos, ah, isso vimos.

O esqueleto está em chamas, a carne pegou fogo. Há um grande chamado para eliminar os excessos e deixar tudo somente na essência. Somos impelidos a purificar-nos. Limpar nosso corpo dos abusos de Setembro, limpar nossa casa da sujeira acumulada, limpar as amizades que não mais servem, limpar o trabalho que não mais nos serve, os relacionamentos que há muito já deveriam ter sido purificados.

Cuidado, no entanto, para não realizar a transformação da Morte apenas externamente. Temos a tendência de achar que precisamos mudar as circunstâncias ao nosso redor e esquecemos que a mudança real é interna. O grande desafio de Outubro é desapegarmos de padrões de comportamento, sentimentos, perspectivas e projetos que não mais nos servem, não mais são possíveis, não mais fazem sentido. A Morte interior é muito mais transformadora do que a exterior, e por isso mesmo muito mais dolorosa.

A Morte é uma transformação que deixa dor, luto, peso. Um pessimismo parece rondar Outubro, decepções e dificuldades de deixar sonhos, sentimentos e ideais para trás. Cuidado com a tendência a sofrer mais pelo fim do que se alegrar pelo recomeço. A Morte, o esqueleto, está viva, sorrindo, acenando. A carne se foi, mas a vida segue. Não deixo de pensar que, qualquer que seja o resultado do pleito, perdemos. O ódio já ganhou. O clima de “nós contra eles” já divide nossa comunidade e atinge seu ápice. Somos convidados, com pesar, a deixar para trás sonhos e projetos e abrirmos mão de muito em prol da união. No fim de Outubro, como ficaremos? Temos a oportunidade de nos unirmos e voltarmos a ser um país ou seguirmos divididos e nos aprofundarmos no cenário de conflito e separação. A escolha é sempre nossa.

A Morte é acompanhada da Rainha de Paus (de novo!), dessa vez trazendo uma grande lenha para a fogueira. Não há escapatória, o fogo da morte queima, a transformação acontece, os fins se processam, podemos resistir, chorar e sofrer ou aceitar e sairmos fortalecidos. A Morte, sempre, é inevitável. Adiável, talvez, mas inevitável. A Rainha de Paus, nua e radiante, parece ter entendido o ensinamento e goza nele, com seu pau expelindo estrelas de prazer. Quem aceita o fim aproveita grandes recomeços. Tentemos não ser nostálgicos, mas enxergar as oportunidades que surgem quando algo encerra seu ciclo.

A Rainha nua também fala da essência revelada pela morte. Novamente, a verdade impera, mas aqui também a sensualidade. Não despreze seus desejos por nenhum motivo. Reconheça, eles estão ali, use-os a seu favor, empodere-se deles ao invés de ser escravo deles. O que torna essa Rainha poderosa é seu grande pau, sua grande energia, libido, gana que a coloca em movimento. Quando a Morte traz sua dolorosa transformação, desejos escondidos e reprimidos podem surgir com grande potência. Use essa força para sair da dor do fim.

Por fim, a Morte acenando como um Xamã na fogueira nos conecta com nossos pais, avós, bisavós, ancestrais. Dedique um tempo este mês para conectar-se com as infinitas gerações que lutaram para que você estivesse no aqui e agora. Aos que sofrem ao lembrar dos que já foram, o alento de saber que eles acenam alegremente do outro lado.

Arthur Luna Borba
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