Deusa Hindu Kali fazendo sua dança sobre o corpo inerte de Shiva
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As Deidades Escuras: o papel da Raiva

Deusa Hindu Kali fazendo sua dança sobre o corpo inerte de Shiva

Quando pensamos nos deuses e mestres, geralmente pensamos em manifestações de seres luminosos, amorosos, calmos. Imaginamos uma sensação de serenidade e paz, como um calmo lago no crepúsculo da floresta. Embora esse seja um aspecto importante dos deuses e mestres, é preciso também olhar para as Deidades Escuras.

As Deidades Escuras são aquelas que nos confrontam com a raiva, a fúria, a falta de controle, a vingança, a morte. São chamadas de escuras porque muitas vezes se relacionam com a noite, com a lua nova, eclipses e com o inverno.

Kali é um bom exemplo de uma Deidade Escura. No hinduísmo, Kali é uma das facetas de Parvati, esposa de Shiva. Quando o mundo foi atacado por um terrível demônio, os deuses começaram a lutar. No entanto, a cada gota de sangue que o demônio demarrava, mais mil demônios surgiam. Assim, rapidamente o mundo estava infestado de demônios, um exército maligno. Shiva chamou Parvati, mas, mesmo ela se transformando em suas muitas facetas guerreiras, o monstro continuava se multiplicando mais e mais.

Isso enfureceu Parvati enormemente. De sua fúria, emerge Kali. Kali, de pele escura, mil braços e pernas, olhos vermelhos e usando um couro de tigre como roupa, era uma figura terrível. Ela foi ao combate dos milhares de demônios, que logo se multiplicaram. Kali, então, começou a decaptar os demônios e a beber todo o seu sangue com sua grande língua. Os monstros decaptados viravam seus adornos. E assim, rapidamente, o mundo estava livre dos demônios, e Kali embriagada com todo o sangue que bebeu como vinho da vitória.

Kali começa uma dança da vitória, que na verdade começa a destruir o mundo. Balançando suas mil armas e batendo seus mil pés, logo o mundo começa a se desfazer em sua dança. Shiva, então, se joga a seus pés, imóvel, e Kali percebe que está pisoteando o próprio marido. Ela, assim, se acalma, e o mundo retorna ao equilíbrio.

Essa história tem muito a nos ensinar. Os deuses, ao tentarem combater os demônios como algo externo, isto é, sem incorporá-los para dentro de si, falharam. Somente quando Kali bebe seu sangue a batalha é vencida. Quando tentamos resolver nossos obstáculos sem também perceber que algo em mim precisa mudar, sem “beber o sangue” das dificuldades e deixar-se transformar por elas, falhamos.

Muitas vezes, a primeira solução parte da raiva e resolvemos os obstáculos. Surge Kali e matamos os demônios. Mas e se continuamos embriagados pela fúria? Logo destruímos tudo que nos rodeia. É preciso saber quando é hora de transmutar a fúria, nos acalmar, e Shiva, aquele que medita, prova isso na história. Sem o seu silêncio e entrega, o universo seria destruído.

Se tivermos medo da raiva, medo do que os problemas podem fazer conosco, medo de nos transformarmos e nos adaptarmos, jamais poderemos vencer os demônios internos. No entanto, se essa raiva não vier acompanhada também do silêncio, da meditação e da entrega, destruiremos não só os problemas, mas a nós mesmos.

Om Krim Kali

Arthur Luna Borba
Tarot, Reiki, aulas de meditação, bioenergética e mitologia